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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Juros básicos caem. Para o consumidor, depende

A Selic veio caindo e está prestes a, pela segunda vez na história, ficar abaixo de 10%. O fetiche dos dois dígitos persegue a economia brasileira, quando se trata de juros básicos.

Na realidade, o grande problema não está na taxa básica de juros, pelo menos para o consumidor. Claro, a queda da Selic é bem vinda para o consumidor que vai se beneficiar ligeiramente da redução dos custos de empréstimos, mas é muito mais importante para o País, que vai diminuir enormemente o custo de sua dívida pública, ainda muito vinculada a juros flutuantes de curto prazo.
Contudo, quando tratamos do assunto na ponta do consumidor, sob qualquer ângulo que se olhe (FecomercioSP, Banco Central, Anefac) o cenário não mudou tanto assim. As taxas de juros médias ao consumidor terminaram 2011 ao redor de 43,8%, o mesmo patamar do começo do ano passado, após ter chegado a mais de 47% em outubro. Ou seja, mesmo com a queda de juros recente, os consumidores ainda pagam excessivamente caro para obter um empréstimo. O pior é que, em algumas carteiras, como o crédito rotativo no cartão de crédito ou o cheque especial, as taxas permanecem em média estáveis há muito tempo. E estáveis na casa dos 150% a 240% ao ano, a depender do caso. Um estudo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) sobre os países latinos próximos como Argentina, Chile e Colômbia mostrou que a taxa para o financiamento no cartão de crédito não ultrapassa os 50% ao ano, ou seja, quase cinco vezes menor do que o nosso teto.

Algo está errado no sistema financeiro brasileiro (ou algo está muito confortável para bancos e administradoras de cartões). Na visão da FecomercioSP, de nada adiantam os protestos, quase infantis, contra os grandes lucros dos bancos. A atitude realmente capaz de mudar algo é promover o aumento da competição no sistema financeiro. Em primeiro lugar, o mercado ainda é muito fechado, porém, e mais importante, o consumidor tem um papel preponderante nessa cruzada para que as taxas de juros caiam a um patamar civilizado. É o consumidor, em última instância, o responsável pelas altas taxas de juros. Afinal, é o consumidor que vai tomar crédito, que se deixa descontrolar e entra no cheque especial, que compra no rotativo do cartão de crédito. É ele também que basicamente se recusa a sentar com o seu gerente de banco ou credor para renegociar os termos de suas dívidas como prazos e juros.
Quando isso começar a ocorrer de forma massiva, certamente os bancos e credores terão que competir entre si por consumidores mais conscientes.

Assessoria Técnica

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Existe um pacto contra o liberalismo no Brasil?

Em recente entrevista o renomado economista Pérsio Arida, que já foi presidente do Banco Central e hoje comanda algumas das maiores operações bancárias do País, alegou existir um pacto antiliberal no Brasil. Ao longo da entrevista, o economista explica que a palavra pacto talvez não seja a ideal, pois acredita que não há um acordo, e sim uma percepção comum, um comportamento natural antiliberal no Brasil.

De qualquer forma, a opinião de um dos economistas mais bem formados do País, um técnico de capacidade irrefutável, que participou da extinção da inflação no Brasil (o Plano Real na realidade tem suas origens no plano Larida, de Pérsio Arida e Lara Resende) deve ser levada em conta. Além de suas credenciais como técnico e de sua formação que inclui doutorado pelo MIT, hoje no controle de operações muito complexas no mercado financeiro, conseguiu uma façanha: juntar uma vasta gama de conhecimento teórico a um grau de experiência prática quase única no País. Tudo isso para mostrar quão importante é entender o que pensa esse brasileiro um tanto especial. Concorde-se ou não com Arida.
Ao acompanhar seu raciocínio em textos e mais recentemente em sua entrevista para a Folha de S. Paulo, a FecomercioSP pode dizer que coaduna em grande parte dos conceitos e  visões do economista. Especificamente na visão de que hoje a antipatia contra a economia de mercado está arraigada ideologicamente e carece de racionalidade. Essa mentalidade média pode ser o entrave para o avanço de políticas modernas e para a distribuição de renda.

O economista discorda, por exemplo, das políticas industriais da forma em que estão sendo feitas. Acredita serem concentradoras de renda, pontuais e casuísticas. Também não vê como algo estratégico a defesa de mercado para algumas multinacionais em detrimento de outras, no caso do setor automobilístico. Lembra que o BNDES jamais empresta para quem não tem acesso a capitais fartos e baratos, o que é em si um contrasenso: o BNDES deveria exatamente emprestar a bons projetos de empresas que não tenham acesso ao mercado externo de financiamento ou ao mercado de ações, e ocorre exatamente o contrário. Ou seja, deixa à míngua quem não consegue capital e empresta a juros subsidiados a quem conseguiria financiar seus projetos no mercado. Talvez bons projetos e mais empregos tenham deixado de ser criados e, certamente, a renda se concentrou nas mãos de poucas empresas, sob o véu do nacionalismo e da falta de espírito de mercado dos brasileiros.
A FecomercioSP aproveita a tese e a excelente companhia de visão estratégica para adicionar: em uma economia que se desenvolve e distribui renda, é essencial que, ao se fazer uma política de incentivo ao crescimento, o acesso a crédito seja cada vez mais democrático, e quando houver necessidade de direcionamento que o governo faça por meio da redução de carga fiscal e da política monetária correta. Também é bom lembrar que não faz nenhum sentido o BNDES atuar prioritariamente (para não dizer completamente) no setor industrial (e para grandes indústrias) quando o setor de serviços hoje gera 65% do PIB e do emprego no País. Não se quer que o BNDES passe a definir campeões no varejo e nos serviços, mas que atue de forma democrática, respeitando minimamente a contribuição que cada setor dá ao produto nacional e à geração de novos empregos.

Abaixo, link da entrevista do economista Pérsio Arida, divulgada na Folha de S. Paulo nesta semana.
http://www1.folha.uol.com.br/poder/1034168-pais-tem-pacto-antiliberal-entre-elites-e-governo-diz-persio-arida.shtml

Assessoria Técnica

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Os mercados calmos na segunda semana do ano

Ao contrário de muitas análises, a FecomercioSP alertava há tempos para uma crise europeia de proporções severas, porém que não seria deflagradora de um momento de ruptura. Além de tudo isso, a entidade lembra desde o começo do quarto trimestre de 2011, que a economia americana dava todos os sinais de que estava realmente se recuperando. Os fatos estão, até o momento, confirmando nossas hipóteses que, perto do consenso, são muito otimistas. Nossas hipóteses são apenas realistas e não há nenhum analista da FecomercioSP tentando predizer o improvável e torcendo para o pior apenas para obter os 15 minutos de fama que Andy Warhol garantiu que todos teriam nessa sociedade moderna. Nosso intuito é ser uma fonte de informações, ser o guia de bons negócios e decisões, mesmo que para isso tenhamos que ser óbvios e enfadonhos por muitas vezes.

No entanto, reconhecemos que existem obstáculos complexos a serem transpostos neste ano e que, em grande medida, o que acontecer na Europa ditará o rumo da economia neste e talvez nos próximos anos. Reconhecemos que houve desaceleração de algumas economias na segunda metade do ano passado e reconhecemos, principalmente, que as dificuldades não serão sobrepostas apenas com boas intenções e otimismo. Mas não estamos encontrando elementos para cravar a derrota total do modelo atual já neste ano. Ao contrário, pelos últimos números esse será mesmo um ano de aquecimento econômico (alguns ainda mais otimistas acreditam que já no primeiro trimestre isso ficará claro) e é mais provável que o Banco Central comece a falar em elevação de juros ainda em 2012 do que manter a trajetória da Selic em queda até o ano que vem.
Nesse ambiente, se for ratificada a retomada americana, e não havendo ruptura na Europa (as duas hipóteses são mais prováveis do que os resultados opostos), os investimentos em ações devem mesmo trazer bons retornos e o nível de emprego, renda e consumo será conservado. Além disso, é provável que neste bojo a própria indústria – setor que sofreu muito neste ano com a competição internacional – possa mostrar também sua resistência e voltar a crescer. Os números mais relevantes dos mercados no curto prazo seguem abaixo:




Assessoria Técnica

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mudanças de pesos do IPCA denotam avanço da economia brasileira

Os índices de preços servem, à priori, para que se possa acompanhar o poder de compra da moeda e, em última análise, do salário médio de um grupo de pessoas. No caso do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), por exemplo, o indicador é escolhido para ser a referência de inflação no sistema de metas inflacionárias, e, portanto, serve como referência geral do que o Banco Central considera como poder de compra da Moeda. Também é verdade que o IPCA é coletado em diversas capitais do País, mas ainda não se “interiorizou” e por isso não pode ser considerado como medida perfeita de inflação de preços. Mas a rigor, nenhum índice é medida perfeita, nem de inflação, nem de vendas, nem de qualquer coisa. O IPCA se presta de forma excelente ao que se propõe.

Mas, além de servir de índice de preços oficial e de padrão médio de poder de compra das famílias brasileiras, o indicador traz, em sua própria constituição, uma radiografia do consumo dos brasileiros ao longo dos anos. O conceito de indicador de preços obriga a entidade que confecciona o índice – no caso o IBGE – faça uma pesquisa para identificar o peso de cada item de consumo sobre o orçamento das famílias. Daí surge a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar). Essa minuciosa pesquisa, feita hoje em dia em mais de 250 mil lares brasileiros ao longo de muitos meses, como se pode imaginar, custa caríssimo. Além de seu custo, a excelência técnica do IBGE acaba por impor um longo prazo de processamento. Por exemplo, a POF que estava sendo utilizada para cálculo do IPCA era a de 2002/2003. A mais recente foi feita em 2008/2009 e somente a partir de 2012 o indicador de preços vai incorporar essa nova estrutura de pesos.

O IPCA demanda muito tempo, e muitos recursos, mas além de proporcionar um excelente calibrador e parâmetro do poder de compra do Real, também gera, como produto derivado, um rol de informações sociais (dinâmicas e estáticas) muito relevante. Por meio do estudo das ponderações de itens e grupos de gastos da família média brasileira, podemos tirar conclusões das mais relevantes, tanto com relação ao status momentâneo, como com relação à sua dinâmica.

Por exemplo, a nova estrutura mostrou as modificações explícitas na tabela abaixo, e dela podemos fazer algumas ilações e tirar algumas conclusões.


Esses números mostram claramente que o consumo no Brasil evoluiu, como era de se esperar e como a FecomercioSP vem alertando nos últimos anos. O grupo de gastos com Serviços cresceu relativamente aos outros. A entidade sempre salientou que é o setor de Serviços que tem sustentado o crescimento e o dinamismo do País. Também fica evidente que, dentro do grupo de bens, o subgrupo dos duráveis ganhou espaço frente ao subgrupo dos não duráveis - ainda que o grupo de bens como um todo tenha perdido espaço para serviços. Essas mudanças mais do que evidenciam, elas comprovam que o crescimento da renda e do emprego é a melhor (senão única) forma de distribuir o bem-estar.  Quanto menor for o peso do consumo de bens e serviços básicos sobre o orçamento familiar, maior o grau de escolha, de decisão e sofisticação ao alcance da população. Em outras palavras: TV a Cabo e Viagens ao Exterior não são mais apenas coisas de rico.

Assessoria Técnica

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Uma semana de boas notícias, mas cuidado, nada está definido

Numa semana em que os europeus deram um forte sinal de que entenderam que vão ter de sujar as mãos para sair do atoleiro, o mercado recebeu essa notícia com otimismo. Bom, pelo menos algo será feito. Só por isso a bolsa em São Paulo subiu 5,5% e o dólar caiu 5,2% na semana. Basicamente o que mudou é que se iniciaram algumas conversas a respeito do papel do Banco Central Europeu (BCE) e também é oficial a possibilidade de alguns dos mais importantes bancos centrais do mundo, inclusive o Fed dos Estados Unidos e o BOJ do Japão, atuarem em conjunto. Essa atuação era chamada de orquestração. Ainda pairam muitas dúvidas sobre os rumos da Europa e sobre os efeitos dessas novas metas de atuação conjunta. As principais dúvidas são:
1.         Os Bancos Centrais vão de fato adotar medidas que aumentem as linhas de crédito de imediato para as necessidades urgentes?
2.         O acordo é factível ou não existem condições de operacionalização para linhas de crédito e de empréstimos flexíveis inter Bancos Centrais?

3.         Os europeus entenderam de fato o risco de deixar desmoronar o Euro?

Para nós, em geral as chances de funcionamento são grandes e amplas, porém, não sem antes muitos meses de ajustes e resgates de emergência à moda antiga ao longo do caminho. O fato de terem essas economias percebido a necessidade de firmarem um acordo mais explícito de colaboração em que constassem ações efetivas para que não haja falta e/ou empoçamento de liquidez, é o diferencial neste momento. Conforme estamos alertando há tempos, nenhuma solução será indolor ou incontestável. Também a hipótese de que os ajustes fiscais na Europa sejam feitos sem problemas políticos sérios internos a cada país, é nula.
A retomada do crescimento na Europa pode demorar alguns anos e nos Estados Unidos deve começar em 2012, porém ainda lentamente. A redução do desemprego é ainda mais problemática e demorada. Na realidade os problemas sociais e políticos internos de cada país são função direta da taxa de desemprego, ou seja, medidas de ajuste, tradicionalmente recessivas, serão fortemente contestadas e isso deverá gerar o crescimento dos movimentos de oposição na Europa. Também é esperado um acirramento dos movimentos nacionalistas, outro efeito colateral muito normal. Neste momento o nacionalismo que deve se exacerbar é o de direita, visto que em sua maioria foram os governo de orientação de esquerda que levaram a Europa a esse momento.

Na realidade foram medidas de esquerda de pouco controle de gastos e exagero de benefícios sociais (welfare) que trouxe a Europa para essa posição. A contraposição com os Estados Unidos não é bem válida, pois foram as mesmas famílias de medidas que complicaram a equação em uma economia pujante. Foram gastos enormes em um esforço de guerra que completa quase 10 anos. A grande diferença é que nos Estados Unidos foi a direita que exagerou nos gastos. Neste momento, um governo democrata não está tendo muito clara essa visão de que o ajuste deve ser feito com a redução do Estado, o que retarda a resolução da questão. Ironicamente têm sido governos Republicanos que atuam para descontrolar as contas públicas (Bush pai, por exemplo) e Democratas para organizar a casa fiscal (Clinton, por exemplo). O presidente Obama tinha tudo para repetir a receita de sucesso, mas preferiu alguns caminhos mais demagógicos como culpar os ricos e o mercado financeiro unicamente e projetar mais gastos pagos com mais tributos sobre fortunas. Caminho errado, se for definitivamente adotado, e essa pode ser a diferença de uma recuperação mais rápida e robusta e um martírio mais prolongado das economias globais.



Assessoria Técnica

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Selic reduzida é arma contra desaceleração econômica

O governo brasileiro está em um processo de desmantelamento do arsenal macroprudencial armado no final de 2010 para combater a alta dos preços. Desde aquele momento, a FecomercioSP vinha apontando para o erro conceitual das ações, dado que:

1.         Não havia um processo inflacionário por choque de demanda, ou seja, conter inflação proveniente de gargalos produtivos e de fatores pontuais e localizados por meio de política monetária tradicional que custa muito caro em termos sociais e produz um efeito pífio, como se vê no momento;
2.         Não havia um processo de super endividamento ou de risco de descontrole de inadimplência, para o qual houve a adoção de medidas restritivas no mercado de crédito. No momento, o mercado de crédito está totalmente sob controle e não há evidências de um processo de inadimplência a caminho;

3.         O crescimento da economia global estimado para 2011, em 2010, já era suficientemente pequeno para dispensar preocupações com manutenção de pressões de demanda externas.

Esses deslizes conceituais agora estão sendo desmontados e o Banco Central vem derrubando a Selic (e deve baixar mais uma vez nesta quarta-feira de 11,5% para 11%), reduziu exigências de garantias creditícias e não levou a cabo o aumento do pagamento mínimo exigido para as faturas de cartão de crédito. Ao mesmo tempo a inflação medida pelo IPCA mostra leves sinais de desaceleração, e, ainda que o indicador não alcance o centro da meta, não fugiu do controle em nenhum momento, e não teria fugido ainda que o Banco Central e o Governo não tivessem adotado medidas macroprudenciais, que no máximo foram inócuas.

Da mesma forma que no final de 2010, a FecomercioSP acredita que o ano que vem será muito parecido com este, sendo que o primeiro semestre sofrerá as influências negativas de uma crise mais aguda do que o previsto na Europa (argumento que finalmente convenceu a equipe econômica a desmantelar o arsenal anti crescimento/inflação) e no segundo semestre o País deve surfar uma onda melhor dos efeitos das medidas atuais de manutenção do padrão de consumo, somadas à provável recuperação americana e ao ajuste, ainda que custoso, da situação europeia. Uma definição, ainda que ruim, é melhor do que a incerteza total.

Assessoria Técnica

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Europa: moeda única - solução comum?

Diversos posts do blog Fecomercio têm tratado da crise europeia, que tem nesse momento epicentro na Grécia e alguma metástase já atingindo Itália e com riscos sérios de contaminar também Espanha, Portugal e Irlanda, em breve. Segundo avaliação, haverá uma solução para esses problemas, provavelmente conjunta. Será uma solução de baixo custo relativamente aos riscos de uma desintegração da União e/ou do Euro, mas ainda assim, as economias mais problemáticas terão que purgar seus pecados fiscais com muita austeridade, que é sempre complicado politicamente diante de populações que vão sofrer as consequências do arrocho.
Há meses é indicado que provavelmente uma solução de reestruturação deverá ser a mais viável e factível em um prazo razoável. Uma espécie de Plano Brady para europeus. Mesmo uma solução dessas não será fácil de implantar, envolverá resistências e também terá custos, pois deverá ser acompanhada de esforço fiscal. Nenhuma solução vai prescindir desse ajuste interno em cada economia problemática. Também é opinião corrente do boletim que de um lado, as economias em crise vão usar o risco iminente de um calote como forma de “chantagear” as economias equilibradas para que recebam ajuda a um custo muito baixo. Esse é o caso explícito da Grécia, que nas entrelinhas ameaça deixar o Euro e voltar a trabalhar com sua moeda antiga, o Dracma. Do outro lado, as economias equilibradas, França e Alemanha, com maior ênfase para esta última, não vão ceder facilmente a essas chantagens. Internamente esses países também enfrentam oposição popular ao resgate puro e simples de economias que atuaram de forma irresponsável na última década e que hoje não encontram mais condições de se reestabelecer pelas suas próprias pernas.

Nesta semana surgiu uma das ideias que se assemelham muito a uma solução conjunta: unificar as dívidas de todos os países. Em termos gerais, o Banco Central Europeu (BCE) resgataria as dívidas dos países com problemas de liquidez e emitiria nova dívida para os credores, mas desta vez uma dívida conjunta europeia, ao invés de dívida grega, italiana ou espanhola. Essa solução é excelente em alguns aspectos: minimiza o risco de calote, aumenta o grau de aceitação dos credores, reduz os juros médios pagos para novas emissões. De outro lado tem seus custos: é um resgate a fundo perdido para economias irresponsáveis, fará o Banco Central europeu “imprimir” mais moeda e não está sendo condicionada a um plano de austeridade fiscal para as economias beneficiadas. Esse plano encontra outro problema: resistência forte da Alemanha.
Ao mesmo tempo Alemanha e França surgem com uma ideia também renovadora e, segundo nossa avaliação, necessária. As duas maiores economias do continente estão criando um acordo de procedimentos fiscais comuns, que, de certa forma, simula a unificação dos dois tesouros. Isso garantiria que, nenhuma dessas economias poderia ser irresponsável às custas da outra. No blog já foi citado, por mais de uma vez, que o grande problema do Euro e da União Européia era a existência de um Banco Central, Uma moeda, e vários Tesouros Nacionais. O que a Alemanha e França estão fazendo de forma embrionária é unificar seus tesouros.

A boa notícia é que estão surgindo ideias, que são, a nosso ver, factíveis. Para a assessoria da FecomercioSP a solução definitiva será um mix de solução fiscal (unificação dos Tesouros Nacionais em um Tesouro Europeu) com a solução de crédito (resgate pelo BCE das dívidas nacionais e troca por uma única dívida), onde haverá uma nova união de procedimentos fiscais, exigência de ajustes fiscais severos nas economias com problemas, proibição para emissões de dívidas soberanas sem aval europeu e a troca das atuais dívidas individuais por uma única dívida comum. De qualquer forma, essa solução não emergirá sem muitas discussões e pressões de todos os lados, pois cada parte da solução desagrada a uma determinada situação das nações envolvidas. Como sempre dissemos, terá custo para todos, mas a solução conjunta e acordada é o menor dos custos.
Assessoria Técnica

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Consumo deve manter a economia andando no início de 2012

O salário mínimo deve subir para R$ 620, ou um pouco mais, logo no início do ano. Essa alta de quase 15% nominal e quase 9% real é um dos mecanismos pelo qual a propensão a consumir será minimamente mantida no ano que vem. Além do salário mínimo, as medidas que o Banco Central vem adotando, a conta-gotas, também devem surtir efeito na manutenção do consumo por meio dos crediários. E ainda existem medidas a serem adotadas paralelamente a essas que têm força suficiente para manter a economia rodando sem grandes percalços no início do ano.

Esse comportamento do governo se justifica por conta da situação externa. Crescimento baixo dos Estados Unidos e do Japão, adicionados a uma das mais complexas crises na Europa e que ameaça a moeda comum podem trazer ventos pouco suaves e bastante desagradáveis para o Brasil e outras economias. A grande probabilidade é de que essas economias saiam de suas crises e retomem seu crescimento ao longo dos próximos anos, mas sem que ocorram movimentos “tectônicos” ao longo do percurso. Mesmo sob esta hipótese o Banco Central e o governo estão certos em agir preventivamente.
Existem duas formas principais de contágio dessas crises de confiança, liquidez e crescimento que podem e devem atingir outras economias, inclusive o Brasil: em primeiro lugar, a queda da projeção da demanda global, o que depreciaria os preços de commodities, hoje uma grande fonte de renda e reservas internacionais para alguns países como Brasil, Índia ou África do Sul; em segundo lugar, a crise de liquidez e de confiança torna os mercados financeiros mais ariscos, e muito pouco confortáveis em manter o atual nível de liquidez para outros países.

Esses fenômenos externos vão certamente pressionar a economia brasileira de forma negativa, arrefecendo o setor produtivo por conta da queda da liquidez internacional e da redução das receitas cambiais. No curto prazo, a solução é apelar para o mercado interno, que, no caso do Brasil, é excepcionalmente grande e se mantém em crescimento. Essa estratégia funcionou em 2008, quando a crise e os receios sobre seus efeitos eram bem maiores do que neste momento. O artifício não foi suficiente para resguardar todo e qualquer setor ou empresa, mas funcionou de forma a que o tamanho do ajuste interno fosse minimizado.
Neste final de 2011 e início de 2012, não será diferente. Vamos fechar o ano crescendo cerca de 3% e iniciar 2012 com uma taxa média de crescimento menor, por volta de 1,5% a 2%, ao menos no primeiro trimestre. Como o mercado interno deve dar conta de grande parte do recado em termos de consumo agregado, a tendência é de que os ajustes serão relativamente pequenos e que não haja perda de postos de trabalho. Esse fôlego inicial para atravessar o mar turbulento é muito importante, porque permite ultrapassar a pior sequência de ondas e encontrar condições para se recuperar ao longo do resto do percurso. Para a FecomercioSP é isso que deve acontecer: o BC vai injetar ânimo por meio da redução de juros e dos compulsórios, e ao mesmo tempo, o crescimento do salário mínimo acima da inflação vai manter uma base de consumo crescente. Parece que o Brasil está fadado a crescer nesta década mais do que a média mundial. Imaginem se estivéssemos preparados para isso.

Assessoria Técnica

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O ritmo de crescimento vai convergindo para os 3% projetados pela FecomercioSP

O Banco Central divulgou nesta semana o IBC-BR de setembro, um indicador antecedente do desempenho do PIB.  O IBC-BR tem uma correlação muito forte com os resultados que o IBGE divulga, com a vantagem de sair com certa rapidez. O índice de setembro cresceu 1,2% em comparação ao ano passado, acumulando nos nove primeiros meses de 2011, em relação a igual período de 2010, expansão de 3,15%. As projeções da FecomercioSP dão conta de um crescimento muito próximo de 3% para o PIB neste ano, e parecem que vão se confirmando.

O ano começou com o ritmo de crescimento entre 4% e 5% e mostrou desaceleração ao longo dos meses. Nossas projeções, no quadro abaixo, mostram que a tendência é de que haja uma pequena recuperação após a desaceleração do último trimestre, por conta do Natal que deverá ser relativamente aquecido. Ainda assim, 2011 será um período de crescimento fraco, em grande parte restrito pelo desempenho da indústria, já que o consumo das famílias deve crescer quase 5% e o varejo pode acompanhar esse ritmo em São Paulo e crescer até um pouco mais no País.

Certamente, com base em projeções semelhantes, que mostram claramente o rápido desaquecimento, o Banco Central decidiu agir de forma a reacender a economia, ainda que os dados da inflação neste momento estivessem um pouco acima do desejado. O Banco Central, muitas vezes criticado, acertou em 2008 quando afrouxou a política monetária e contribuiu para que o ano de 2009 não tivesse um desfecho muito ruim, mantendo o consumo interno ativo. O caso parece ser o mesmo, o BC está reduzindo a Selic e mantendo condições para que haja expansão do volume de crédito, ação esta que, provavelmente, estaremos aplaudindo no final do ano que vem. Mesmo considerando que a crise da Europa tenha um desfecho razoável, o crescimento global de 2012 já está bastante comprometido, pois além dessa crise na Europa, Japão e Estados Unidos ainda vão manter passo fraco em sua caminhada para a recuperação.
Assessoria Técnica

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Banco Central atua para expandir crédito

Exatamente na mão oposta às ações adotadas ao final de 2010, o Banco Central (BC) começa um processo de alavancagem da economia. Ao final de 2010, sob os riscos de descontrole inflacionário e também sob a influência da percepção de que o consumo estaria aquecido demais, o Banco Central iniciou um processo de elevação de juros e aumento das restrições creditícias. Naquele momento o governo providenciou medidas para “desalavancar” o consumo através da redução do ritmo de crédito, que crescia a 15% ao ano.

Uma das medidas pensadas para reduzir o ritmo do consumo refere-se ao pagamento mínimo mensal da fatura de cartão de crédito. O atual limite mínimo de 15% do saldo devedor (já superior ao limite anterior de 10%), estabelecido pela Circular 3.512, de 25 de novembro de 2010 tem se mostrado suficiente para o controle dos valores em exposição, e, apesar de programada uma elevação desse limite para 20% do saldo devedor em dezembro próximo, a parcela mínima deve permanecer em 15% da fatura. Esse é mais um sinal de que o piloto alterou significativamente a rota. Provavelmente é porque viu que a tempestade também mudou de direção, e o correto a se fazer nesses casos é mesmo se render aos fatos. Essas medidas representam um ajuste na política “macroprudencial”, adotada no final do ano passado.
O Banco Central e o governo de forma geral estão adotando uma postura que já obteve relativo sucesso na antecipação do combate aos eventuais efeitos da crise de 2008 sobre nosso ritmo de crescimento. Os movimentos anticíclicos que se mostraram bastantes eficientes na manutenção do ritmo de consumo em 2009, enquanto quase todo o resto do mundo entrava em recessão, estão sendo novamente reeditados, com base na percepção de que a crise na Europa pode ser mais profunda do que se imagina neste momento. Na realidade, a crise na Europa será, com certeza, muito grave, e a depender do desfecho poderá ser fatal para alguns países. A atitude de nosso governo em antecipar-se antes mesmo de saber qual será o desfecho na Europa é louvável. É melhor pecar pelo excesso de zelo neste momento e ter nas mãos instrumentos que possam estimular crédito e consumo, o que garantirá que o emprego seja preservado, assim como o foi em 2009, e que preservou nossa capacidade de rápida reação em 2010, conforme vimos. Portanto, o que está sendo projetado hoje terá bons efeitos em 2012, prevenindo para que a crise não nos atinja em cheio, e em 2013 justamente porque teremos mantido nossa capacidade de reação.

Neste momento o Governo não contará com o mesmo espaço que tinha em 2008 para elevar os gastos públicos. Porém, o Banco Central ainda detém um arsenal muito pesado. A taxa básica de juros será a arma principal, mas poderá ser acompanhada de flexibilizações no mercado de crédito como as medidas sobre o cartão der crédito, que certamente terão apelo no ano que vem. Em primeiro lugar, a queda da Selic abre espaço não somente para a redução do juro nos crediários e para empresas, mas também reduz os custos do setor público – que em última análise abre espaço para posterior aumento de gastos mais eficientes do governo. Complementar a essas medidas será a redução de compulsórios que deverá elevar o volume de crédito disponível e que certamente será distribuída em toda economia por meio do sistema financeiro.
Assessoria Técnica

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Contas externas mostram vigor do País

O saldo em conta corrente apresentou déficit de US$ 2,2 bilhões em setembro, conforme divulgado pelo Banco Central. O resultado negativo verificado no mês anterior havia sido de US$ 4,8 bilhões. Em setembro, o período fechado de 12 meses totalizou déficit de US$ 48 bilhões, que representa cerca de 2% do PIB, em linha com as projeções da FecomercioSP. Para 2011, esperamos um déficit de US$ 55 bilhões, ou 2,2% do PIB, ainda bastante palatável, porém caminhando para uma situação menos benéfica no futuro que se aproxima. O bom momento do Brasil e o mau momento das grandes economias, facilita o financiamento de déficits em contas correntes, e talvez o País possa se valer disso para elevar a proporção de investimentos internos, captando poupança externa. Na realidade, o importante é a utilização dos recursos externo (usos e fontes de capitais) e não somente o volume absoluto ou proporcional desse déficit. Se usado para aumentar o investimento, será muito bom. Se usado para garantir o consumo de bens finais, não será tão bom assim.

Os capitais financeiros e de investimentos continuam a ser superavitários, e em setembro houve entrada de investimentos estrangeiros diretos (IED) de US$ 6,3 bilhões, bem maiores do que se viu em agosto: US$ 5,3 bilhões recebidos em agosto. O Investimento estrangeiro Direto (IED em português e FDI em inglês) soma US$ 76,3 bilhões em 12 meses. Dentre as outras grandes contas das transações correntes, o que caiu em setembro, de forma contundente, foram as remessas de lucros e dividendos, que passaram de um saldo negativo de US$ 5,1 bilhões em agosto para saída de US$ 2,0 bilhões. O saldo de serviços se manteve no mesmo patamar recente, com déficit de US$ 3,1 bilhões em setembro.  O saldo comercial passou de superávit de US$ 3,9 bilhões para US$ 3,1 bilhões em setembro, superior ao registrado no mesmo período do ano passado (US$ 1,1 bilhão).
A expectativa é de que, ao menos no curto e médio prazo (ao longo de 2012) o quadro se mantenha praticamente inalterado. O crescimento do mundo ainda estará centrado nos países emergentes e como as economias ricas vão se manter em compasso de espera, a tendência é de que a liquidez global continue privilegiando investimentos, diretos e financeiros, em economias como a brasileira. No ano que vem a tendência diferente está por conta do desempenho norte-americano, que pode ser um pouco melhor do que o que se previa e certamente melhor do que em 2011. Mesmo assim, as expectativas são de um crescimento de 2,5% a 3% para a maior economia do mundo, o que não deve alterar drasticamente esse cenário.

Observação: os investimentos externos favoráveis facilitam o financiamento do nosso déficit em contas correntes que deve ser um pouco maior do que 2,1% neste ano, mas que, por outro lado ainda é menor do que os mais de 3% do PIB que causaram forte danos ao país em meados da década de 1990. Também é verdade que com o mundo se movendo da forma atual, o país pode suportar déficits maiores por um período relativamente longo (não são déficits infinitos eternamente...). O país deveria aproveitar o bom momento externo, para fazer os ajustes internos que há muito são objetos de desejo de nossa sociedade e que, certamente alavancariam nosso crescimento para um patamar de 5% a 6% ao ano, muito melhor do que nossa média atual.
Assessoria Técnica

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mercado revê previsões e fica mais pessimista

O Boletim Focus do Banco Central levanta periodicamente projeções dos analistas de mercado, principalmente do setor financeiro, sobre diversas variáveis importantes. São projeções sobre PIB, inflação, taxa de câmbio, juros, balança comercial etc. Na última edição do boletim, nesta semana, a média das expectativas do PIB caiu e para inflação aconteceu o inverso. A evolução das projeções de PIB e IPCA ficou conforme segue:

Mais importante do que notar que há uma deterioração nestas projeções é verificar que o Brasil retoma dois maus hábitos: o de crescer pouco e o de deixar a inflação um pouco solta. Se as projeções estiverem corretas – e para a Fecomercio o crescimento de 2011 será ainda menor do que 3,42% - o Brasil vai crescer muito menos do que seus pares dos BRICs ou do que outros países emergentes. Muitos de nossos pares econômicos estarão crescendo entre 8% e 10% neste ano e provavelmente algo semelhante ainda em 2012, a despeito da crise nos países desenvolvidos. De outro lado a inflação prevista em média para esses países é menor do que a brasileira. Ou seja, há algo que pode ser feito para acelerar o crescimento, e que não seja deixar a inflação corrente crescer.
É chato insistir, mas o Brasil deve promover uma ampla reforma fiscal e de eficiência do setor público, ainda que seja gradativamente. Essa reforma não só deve liberar o setor privado para investir mais através do corte de impostos, como ao aumentar o superávit e a eficiência do governo, cria condições de fato para que o setor público complemente investimentos nos mais diversos setores de infraestrutura, hoje muito aquém do que o país precisa. Também será possível reduzir custos e retirar pressão inflacionária de nossa economia com essa redução de carga tributária e do custo Brasil que deriva da modernização da infraestrutura e dos ganhos de produtividade públicos e privados. Teríamos, ao mesmo tempo, um ganho de eficiência e de competitividade, e um aumento do ritmo de crescimento com menor pressão sobre os preços. Parece um sonho, mas outros países estão vivendo esse momento, e nós não!

Assessoria Técnica

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mais notícias boas do que ruins na semana

Uma nova ordem mundial surge para tentar resgatar a Europa, ao mesmo tempo em que começam a surgir projetos para acelerar a retomada do crescimento americano. No âmbito dos emergentes (hoje os BRICs) o mercado está mais calmo, até porque não houve, até o momento, uma corrida contra os investimentos desses países e nem uma acentuada queda do preço de commodities, como alguns chegaram a prever. Esse cenário foi o suficiente para manter os mercados mais calmos, ainda que voláteis, do que nas semanas anteriores.

No Brasil, especificamente, o Ibovespa fechou em alta, com um bom volume negociado ao longo dos dias e acompanhou o mercado externo. O mercado cambial ainda está em ritmo de desvalorização. Em grande parte essa tem sido a reação básica que denota desconfiança dos agentes no controle inflacionário e, portanto, cambial. Talvez o câmbio seja a válvula de escape desse mercado, mas é importante lembrar que, a desvalorização continuada do real (após ter ficado muito valorizado) pode se mostrar um importante obstáculo para o Banco Central no combate à inflação.




Conforme se pode notar a bolsa teve um comportamento bastante comportado com evidente tendência de alta e menos turbulências do que nas semanas passadas. Por mais irônico que pareça, o acompanhamento da trajetória do câmbio é que voltou a ser relevante. A semana deve começar tranquila nas bolsas, na esteira do final da semana passada, mas a tendência para o câmbio é de desvalorização.
Para completar a semana, o governo atuou, certamente sob pressão do setor automobilístico, e levantou barreiras tributárias sobre a importação de automóveis. A medida tem claro foco sobre as importações de automóveis chineses e sul coreanos. Essa medida reedita os momentos menos brilhantes da equipe econômica, não se encaixando entre as boas notícias da semana. Sob a desculpa de proteger o emprego nacional o governo elevou em 30 pontos de percentagem o IPI de automóveis importados. Vale ressaltar que, no caso dos carros chineses e sul coreanos  (alvos principais das medidas) os modelos competem diretamente com modelos que as montadoras nacionais já importam do México e da Argentina (países que não serão afetados pelo aumento do IPI). Portanto, se a medida protege empregos, protege os gerados no México e na Argentina.

Certamente, no entanto, esse aumento do IPI vai encarecer carros importados e abrir espaço para que os nacionais também subam de preços. Não parece uma medida inteligente para quem quer combater a inflação. No mais, se o problema está no excesso de estoques nos pátios das empresas nacionais, o certo é provocar a queda de preços destes carros para estimular seu consumo e não a alta generalizada. No passado, o governo reduziu o IPI de forma segmentada e atingiu seu objetivo de manter o mercado funcionando. Não vale fazer o contrário e dizer que é para a mesma finalidade. É uma medida protecionista, e ponto.

Assessoria Técnica

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Comodities vão impulsionar o PIB em 2011

O Banco Central criou um indicador para acompanhar os preços de grupos de commodities (Agropecuária, Metais e Energia) e a composição média na pauta brasileira de produção/comércio internacional. Ou seja, com base nos índices de preços desses grupos de commodities podemos antecipar o desempenho das exportações líquidas e da atividade econômica. Esse indicador, o IC-BR, se diferencia dos existentes no mercado, como o do Commodity Research Bureau (CRB), por levar em consideração as particularidades do Brasil.

Dito isso, o que se pode afirmar é que, no primeiro trimestre deste ano o indicador atingiu o seu patamar histórico mais elevado. Desde então, por conta da redução das expectativas de crescimento mundial que derivaram da piora do cenário americano e europeu, o indicador apresentou uma tendência de queda significativa. Em agosto, essa tendência de queda cessou, e ainda os preços internacionais de commodities não estejam no seu pico, em média estão muito elevados em relação ao patamar histórico e mesmo em relação ao ano passado.
Em média, os produtos em que o Brasil é um participante relevante do mercado, seja importando ou produzindo/exportando, subiram 18% em relação a agosto de 2010 e acumulam em oito meses 32% de alta. Se não houver mais mudança nos preços, como sugerem as projeções do momento, os preços das commodities devem ficar entre 20% e 25% mais altas em 2011 do que em 2010, aumentando o bônus internacional recebido pelo Brasil no saldo comercial. O País tem obtido ganhos de exportação tanto pelo volume, quanto pelos preços dos produtos exportados, e esse fenômeno tem ajudado a economia, mantendo de certa forma a capacidade de endividamento interna e externa. Também é verdade que o dinamismo das exportações - ainda que estas sejam baseadas em primários - tem ajudado a manter empregos e uma taxa de crescimento acima da média mundial, e também responde por grande parte da valorização cambial do momento.

Como se vê, a tendência de alta foi interrompida a partir do segundo trimestre, mas mesmo assim, em termos históricos, os preços das commodities se mantêm em patamares elevados, o que deve ser considerado positivo de forma geral. Não há expectativa de grandes quedas adicionais nos preços desses produtos, mesmo tendo em consideração uma redução do ritmo mundial de crescimento. Neste momento, não é esperada uma recessão mundial de grandes proporções ou um corte de crédito monumental nos mercados internacionais como ocorrera em 2008 com a quebra do Lehman Brothers. Podemos esperar mais alguns meses de câmbio valorizado, ainda que tenha havido um ajuste nas últimas semanas, e também devemos nos acostumar com o enorme incentivo internacional à produção e exportação de produtos primários, hoje muito demandados.
Assessoria Técnica

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Inflação, bolsas e Europa: muita informação

Chega a ser difícil interpretar a alta do Ibovespa em um dia no qual o índice chegou a cair mais de 2% e terminou subindo quase 3%. No início da semana, ocorreu o contrário. Essa volatilidade era esperada bem como um leve viés de baixa nesta semana. Nesta terça, especificamente antes do feriado da Pátria, as notícias indicariam um resultado ruim, que, por sorte, não veio. Europa de novo com dúvidas rondando sobre a solvência de algumas economias, mercado americano indo de mal a pior nos últimos dias e a inflação medida pelo IPCA voltando a subir acima das expectativas, fechando agosto em 0,37% de alta.

Operadores creditaram o resultado do Ibovespa a uma leve melhora no final do pregão de Nova Iorque, mas certamente essa é uma explicação por falta de outra melhor. Assim é porque a melhoria dos índices americanos na prática foi irrelevante, e aconteceu bem depois do Ibovespa estar subindo rapidamente. Não dá para a causa vir depois do efeito. O mais provável é que os boatos sobre uma nova alta na avaliação de crédito soberano do Brasil tenham inflado os mercados. De fato, se compararmos nossas condições com o resto do mundo, o País merece um up grade no rating internacional, seja da S&P ou Moody’s.
De volta ao mundo, o País atravessa um momento complexo. Dados ruins e dados positivos se misturam tornando muito difícil uma avaliação reta, linear. Acreditamos que, em média, e relativamente, o Brasil vai bem, apesar de pressões inflacionárias (em um mau momento, já que o Banco Central acabou de reduzir a Selic) e da desaceleração do PIB baseado no desempenho medíocre da indústria. Esse estado de coisas deve permanecer assim por um bom tempo, o que dificultará a ação de analistas e as projeções. É um alerta para essa volatilidade do mercado que pode ainda se manter por um bom tempo.

Do lado internacional, novamente não estamos sendo pegos de surpresa. Quem acompanha o boletim sabe que não acreditamos em uma solução fácil e rápida para o caso europeu (dívidas soberanas muito elevadas e déficits públicos insolúveis). Também não está prevista uma recuperação rápida para a economia americana, ou seja, taxas de crescimento baixas e anúncios de desemprego alto estão precificados em nossas análises. Economia às vezes é muito chata, porque não existem mágicas nem muitas notícias bombásticas. Apenas o óbvio, que surpreende muita gente.
Assessoria Técnica

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

LTNs mostram que a perspectiva de juros é de queda

Quem comprou uma Letra do Tesouro Nacional (LTN) em janeiro deste ano, pagou barato por um papel que deverá render mais de 13% ao ano, até 2013. Quem deixou passar essa oportunidade viu o preço do papel subir (e, portanto, viu o rendimento cair) rapidamente. As LTNs hoje estão rendendo 11,2% ao ano para vencimento em janeiro de 2013 (menos de um ano e meio) e 11,3% para vencimento em janeiro de 2014. Esse diferencial entre a taxa de curto prazo (Selic) e a de longo prazo evidencia que o mercado privado confia mais no controle inflacionário do que o próprio Banco Central. Também mostra que a taxa de juros é tão exagerada que já se aceita uma remuneração menor no longo prazo do que no curto, dado que a Selic (taxa que remunera os depósitos diários nos bancos) se encontra em 12,5%.

Quem aproveitou se deu bem, pois não é todo dia que encontramos uma remuneração de 13% ao ano com inflação média esperada para o período inferior a 5% ao ano. É uma baita taxa de juros. Mas é interessante notar que as taxas de curto prazo estão menores que as de longo prazo, nem mesmo o mercado financeiro acredita que seja razoável remunerar dinheiro dessa forma, por tanto tempo. Ou seja, o mercado financeiro precifica quedas de juros no médio prazo, de forma a que, em média a taxa de juros de hoje até janeiro de 2013, acumule 11,2% ao ano. Quando isso acontece, o Banco Central tem espaço para reduzir as taxas de curto prazo.
Mas, independente da decisão do Banco Central, a queda de juros de longo prazo ratificada pelas LTNs já surte efeitos no mercado de crédito. Na realidade, a Selic é apenas um balizador de curto prazo, e o que interessa para o mercado financeiro na composição do custo do crédito para Pessoas Física e/ou Pessoa Jurídica é a taxa de longo prazo. Ninguém toma dinheiro no curto prazo e empresta no longo. As operações normalmente buscam um mínimo de “casamento” de prazos. Os bancos se financiam no médio e no longo prazo para poderem financiar o consumo de Bens Duráveis.

Ainda que o Banco Central não creia em si mesmo e nem mesmo nos mercados, as taxas de juros têm mesmo motivos para caírem. Em primeiro lugar, porque a inflação deve convergir para o centro da meta em breve. Em segundo lugar, porque a taxa de câmbio continua se valorizando, e com uma taxa de juros tão elevada, a atração de capital é de tal ordem elevada que os preços dos títulos deveriam estar de fato subindo, pela sua procura. Preço dos títulos em alta significa queda na sua remuneração, ou queda de juros no mercado, e isso está de fato ocorrendo. Parece que o Banco Central mantém a Selic mais de 1,5pp acima da taxa de longo prazo apenas pelo prazer de gastar mais dinheiro com o pagamento do giro de capital diário dos bancos.
Assessoria Técnica

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Incertezas fazem Dilma reduzir a previsão do PIB para 4%

É muito natural que o PIB cresça menos do que o governo projeta no início do ano e que a inflação seja um pouco maior do que a expectativa revelada do Banco Central. Em 2011, é exatamente isso que vai acontecer. O governo projetou, logo no início do ano, um crescimento entre 4,5% e 5% e o Banco Central falava em IPCA ao redor de 5,5%. No mesmo início de ano, cálculos da Fecomercio indicavam que o PIB cresceria 3,5% (sem termos a pretensão da precisão milimétrica) e para nós a inflação ficaria um pouco acima dos 6%. Exatamente por isso, já em agosto, não precisamos mudar de opinião: o PIB vai crescer algo ao redor de 3,5% e a inflação medida pelo IPCA vai ficar entre 6% e 6,5% - novamente, nós não temos condições de prever com duas casas decimais nem de “cravar” um número exato, nossos modelos são muito mais modestos.
A Assessoria Técnica faz uma brincadeira todo início de ano com as projeções dos principais analistas do País, todas elas condensadas no relatório Focus do Banco Central. Nossa aposta é ver quanto essas projeções se alteram ao longo do ano. Não que tenhamos condições de fazer algo muito melhor, mas sempre que nos é perguntada uma projeção, entendemos que existem tantos fatores que se colocarão entre o presente e a data da previsão que é humanamente impossível fazer algo sério com grande precisão. A tendência, essa sim, costumamos acertar. E, normalmente, fazemos projeções em intervalos. Por exemplo, o crescimento do PIB de 3,5% na realidade é a média dos nossos extremos. Projetamos, a rigor, um crescimento de 3% a 4% e inflação entre 6% e 6,5%.
De qualquer maneira, o governo fazer projeções otimistas não é uma surpresa, mas os analistas do mercado também têm tendido a errar todos para a mesma direção.  Isso é um pouco estranho, porque se os erros fossem distribuídos um pouco para cima e um pouco para baixo, estaria tudo correto, porque é o que ocorre conosco também. Quando você erra sempre para um lado, há algum problema com o seu modelo de previsões, isso é até explicado em uma das aulas de econometria. Ah, para o câmbio, para a taxa de câmbio do real, a assessoria somente faz projeções mediante tortura. Não acreditamos que dá para prever com o mínimo de precisão a taxa de câmbio num horizonte muito maior do que algumas horas.

Para não dizer que fugimos das projeções, seguem algumas importantes:
PIB: entre 3% e 4%
IPCA: entre 6% e 6,5%
Exportações: US$ 255 bilhões (recorde)
Importações : US$ 225 bilhões (recorde)
Conta Corrente: - US$ 55 bilhões
Taxa de Câmbio: ? - mas o real tem todas as indicações de que terminará o ano ainda muito valorizado.

Alterar projeções é normal, pois as variáveis envolvidas são sempre muitas, mas o que nos causa estranheza é o erro sistemático somente para um lado (normalmente otimista) e a demora em corrigir as projeções mesmo quando os sinais já estão contradizendo suas apostas. A presidente está reduzindo suas expectativas por conta principalmente do cenário econômico nos Estados Unidos e Europa. O problema é que, para muitos analistas, a aposta de crescimento fraco e muitas dificuldades nas economias avançadas já era a mais realista desde 2010. Não mudou muita coisa, e estamos surpresos com a surpresa, mais uma vez. A situação econômica de Japão, EUA e Europa é séria, contempla um superendividamento conjunto e terá solução muito lenta. Por outro lado, não apostamos em uma nova crise de proporções como a de 2008, apenas mais do mesmo nestes dois últimos anos.
Assessoria Técnica