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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Juros básicos caem. Para o consumidor, depende

A Selic veio caindo e está prestes a, pela segunda vez na história, ficar abaixo de 10%. O fetiche dos dois dígitos persegue a economia brasileira, quando se trata de juros básicos.

Na realidade, o grande problema não está na taxa básica de juros, pelo menos para o consumidor. Claro, a queda da Selic é bem vinda para o consumidor que vai se beneficiar ligeiramente da redução dos custos de empréstimos, mas é muito mais importante para o País, que vai diminuir enormemente o custo de sua dívida pública, ainda muito vinculada a juros flutuantes de curto prazo.
Contudo, quando tratamos do assunto na ponta do consumidor, sob qualquer ângulo que se olhe (FecomercioSP, Banco Central, Anefac) o cenário não mudou tanto assim. As taxas de juros médias ao consumidor terminaram 2011 ao redor de 43,8%, o mesmo patamar do começo do ano passado, após ter chegado a mais de 47% em outubro. Ou seja, mesmo com a queda de juros recente, os consumidores ainda pagam excessivamente caro para obter um empréstimo. O pior é que, em algumas carteiras, como o crédito rotativo no cartão de crédito ou o cheque especial, as taxas permanecem em média estáveis há muito tempo. E estáveis na casa dos 150% a 240% ao ano, a depender do caso. Um estudo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) sobre os países latinos próximos como Argentina, Chile e Colômbia mostrou que a taxa para o financiamento no cartão de crédito não ultrapassa os 50% ao ano, ou seja, quase cinco vezes menor do que o nosso teto.

Algo está errado no sistema financeiro brasileiro (ou algo está muito confortável para bancos e administradoras de cartões). Na visão da FecomercioSP, de nada adiantam os protestos, quase infantis, contra os grandes lucros dos bancos. A atitude realmente capaz de mudar algo é promover o aumento da competição no sistema financeiro. Em primeiro lugar, o mercado ainda é muito fechado, porém, e mais importante, o consumidor tem um papel preponderante nessa cruzada para que as taxas de juros caiam a um patamar civilizado. É o consumidor, em última instância, o responsável pelas altas taxas de juros. Afinal, é o consumidor que vai tomar crédito, que se deixa descontrolar e entra no cheque especial, que compra no rotativo do cartão de crédito. É ele também que basicamente se recusa a sentar com o seu gerente de banco ou credor para renegociar os termos de suas dívidas como prazos e juros.
Quando isso começar a ocorrer de forma massiva, certamente os bancos e credores terão que competir entre si por consumidores mais conscientes.

Assessoria Técnica

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Mercado eleva estimativas para PIB e inflação

Os mercados estão apostando em um PIB crescendo 3,30%, um pouco mais do que os 3,27% previstos anteriormente. Para o IPCA a aposta subiu de 5,28% para 5,29%. Na realidade os movimentos entre uma projeção e outra foram muito modestos, mas indicam que gradativamente as projeções do mercado, divulgadas no boletim Focus do Banco Central (http://www4.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/readout.asp) estão convergindo para o mesmo patamar das projeções feitas pela FecomercioSP no final de 2011. 

A FecomercioSP no final de 2011 divulgou suas expectativas para este ano. Na realidade não temos a pretensão de acertar na segunda casa decimal. A rigor, não temos precisão e não acreditamos que alguém chegue a essa sofisticação. Exatamente por isso traçamos um cenário básico, que consideramos ter mais de 80% de chance de ocorrer e outros alternativos para melhor ou para pior, com menos de 10% de chance para cada um.


Em se tratando apenas do cenário provável, na realidade o risco está na necessidade de novas projeções mais elevadas tanto para a inflação quanto para o PIB. Os técnicos da FecomercioSP ainda estão bastante confortáveis com a projeção do IPCA, mas começam a identificar sinais que podem pressionar o crescimento um pouco para cima. Ao final do primeiro trimestre provavelmente serão feitos ajustes nas projeções e a tendência é de melhorar a projeção do PIB, reduzir um pouco o déficit em contas correntes e elevar a aposta para a balança comercial. Enquanto isso, vamos acompanhando o desenrolar dos fatos.

Assessoria Técnica

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Mais uma vez, a Europa mexeu com os mercados

Para quem lê o blog, não há nenhuma surpresa. Quantas vezes o mercado financeiro (e outros mercados também) já se agitaram por conta de notícias extremamente positivas ou extremamente negativas vindas da Europa ou relativas às soluções ou complicações da atual crise? Inúmeras! Mas o que ocorreu que deixou todo mundo eufórico? Mesmo com a queda esperada dos juros, o dólar caiu durante esta quarta-feira, o Ibovespa e as bolsas em geral subiram forte e o clima mudou radicalmente. Na realidade nada mudou radicalmente de forma a justificar esse comportamento, mas o simples fato de que os mercados acreditam que a união de esforços entre Bancos Centrais pode funcionar bem, foi motivo suficiente para um dia de bons resultados. Para completar, até mesmo a China está adotando medidas para manter o consumo interno, o que é uma excelente notícia para nós brasileiros.

As principais notícias do dia:

1.         China vai reduzir compulsório, o que deve alavancar fortemente o mercado interno de crédito;

2.         Federal Reserve e Bancos Centrais do Canadá, Inglaterra, Japão, Suíça e Banco Central Europeu anunciaram ações coordenadas para mitigar impactos da crise;

3.         Os mercados no Brasil já esperavam que a Selic fosse cair de 11,5% para 11%.

No caso da China, o aumento de crédito possível por conta da redução dos compulsórios pode manter o ritmo de consumo interno crescendo cerca de 10% ao ano, o que manterá os preços de commodities em patamares elevados. Boa notícia em geral, mas para alguns setores da indústria isso pode ser entendido como a continuidade de um processo de valorização cambial que já perdura 2 anos.
No caso das ações coordenadas os efeitos são potencialmente grandes. Isso deverá impedir que haja empoçamento de liquidez de um lado e falta de recursos de outro. Foram assinados acordos para facilitar e baratear as transferências de recursos de um mercado para o outro e também reduzir os custos nas trocas entre moedas (swaps cambiais). Ironicamente, os elevados fluxos financeiros eram – erroneamente – identificados como uma das causas da crise. Na prática, os bancos centrais vão se ajudar uns aos outros e em cada região, vão servir para dar liquidez à empresas e bancos que eventualmente sejam solventes mas que estejam com pouca liquidez. Essa medida reduz muito a possibilidade de quebradeira de empresas e bancos, inclusive na Europa, onde a situação é complicada.

No Brasil a queda da Selic deve reforçar a ideia de que o governo está estimulando o consumo. Em parte esse efeito poderá ser medido já no Natal por conta da movimentação de vendas no varejo. Acreditamos que o Banco Central e o governo estão no caminho certo, dado que há um processo de desaceleração e de outro lado, temos munição e arsenal para combater esse processo, com poucos riscos inflacionários de fato.

Assessoria Técnica

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Selic reduzida é arma contra desaceleração econômica

O governo brasileiro está em um processo de desmantelamento do arsenal macroprudencial armado no final de 2010 para combater a alta dos preços. Desde aquele momento, a FecomercioSP vinha apontando para o erro conceitual das ações, dado que:

1.         Não havia um processo inflacionário por choque de demanda, ou seja, conter inflação proveniente de gargalos produtivos e de fatores pontuais e localizados por meio de política monetária tradicional que custa muito caro em termos sociais e produz um efeito pífio, como se vê no momento;
2.         Não havia um processo de super endividamento ou de risco de descontrole de inadimplência, para o qual houve a adoção de medidas restritivas no mercado de crédito. No momento, o mercado de crédito está totalmente sob controle e não há evidências de um processo de inadimplência a caminho;

3.         O crescimento da economia global estimado para 2011, em 2010, já era suficientemente pequeno para dispensar preocupações com manutenção de pressões de demanda externas.

Esses deslizes conceituais agora estão sendo desmontados e o Banco Central vem derrubando a Selic (e deve baixar mais uma vez nesta quarta-feira de 11,5% para 11%), reduziu exigências de garantias creditícias e não levou a cabo o aumento do pagamento mínimo exigido para as faturas de cartão de crédito. Ao mesmo tempo a inflação medida pelo IPCA mostra leves sinais de desaceleração, e, ainda que o indicador não alcance o centro da meta, não fugiu do controle em nenhum momento, e não teria fugido ainda que o Banco Central e o Governo não tivessem adotado medidas macroprudenciais, que no máximo foram inócuas.

Da mesma forma que no final de 2010, a FecomercioSP acredita que o ano que vem será muito parecido com este, sendo que o primeiro semestre sofrerá as influências negativas de uma crise mais aguda do que o previsto na Europa (argumento que finalmente convenceu a equipe econômica a desmantelar o arsenal anti crescimento/inflação) e no segundo semestre o País deve surfar uma onda melhor dos efeitos das medidas atuais de manutenção do padrão de consumo, somadas à provável recuperação americana e ao ajuste, ainda que custoso, da situação europeia. Uma definição, ainda que ruim, é melhor do que a incerteza total.

Assessoria Técnica

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mudanças nas regras da poupança?

O governo quer vincular a remuneração das cadernetas de poupança à taxa Selic. Essa é a alternativa tecnicamente mais aceita pela equipe econômica entre as opções que vêm sendo consideradas. Essa medida serviria para evitar que o rendimento da poupança, atualmente equivalente à Taxa Referencial (TR) mais 6% ao ano, funcione como um empecilho à queda dos juros ou acabe provocando uma migração em massa de recursos para esta tradicional modalidade de aplicação financeira. Toda vez que a Selic começa a chegar próxima de atingir um dígito essa discussão volta à tona. Claro, se as taxas de juros do País forem de fato caminhar para padrões internacionais, as aplicações em poupança seriam um empecilho porque no mínimo renderiam 6% ao ano, conforme estabelecido hoje.
Essa regra para a poupança fazia sentido quando as taxas de juros eram muito elevadas, assim como a inflação. Naqueles dias, de péssima lembrança, os juros reais muitas vezes eram negativos por conta da aceleração inflacionária. De outro lado, como as taxas nominais eram muito elevadas, o piso de 6% básico da poupança era algo muito pouco relevante. Também havia o fator segurança, pois a poupança deveria render “míseros” 0,5% ao mês mais a TR, que mal cobria a inflação, mas era o que estava disponível para baixas quantidades a serem investidas. Também havia garantias adicionais para aplicações na caderneta de poupança que não se conseguia em outras aplicações.
  foi o tempo em que a poupança era o único investimento seguro disponível para pobres e para pequenas quantias. Hoje, o Tesouro Direto vende títulos com aplicações mínimas a partir de R$ 100 e vai reduzir o investimento mínimo para R$ 30. Também estamos deixando para trás os momentos de taxa de juros básica e CDI superiores a 20%, tentando caminhar para o patamar civilizado de um dígito ao ano. Ou seja, talvez não haja motivo para que ainda existam aplicações com regras tão restritas. Talvez seja o momento de deixar o mercado trabalhar um pouco sozinho, garantidas, claro, as condições mínimas de transparência e liquidez, bem como direitos mínimos dos aplicadores.

Se a poupança se mantiver com as regras atuais de remuneração e tributação, em breve pode haver forte migração de aplicações de outras carteiras para a poupança que garante ao menos 6% como piso e também tem regras benéficas de IR. O problema de mudar essas regras é que, certamente, haverá gritaria e alguém vai sair na frente dizendo que o que querem fazer é dar o calote nos pobres e nos idosos. Na realidade é o contrário, pois um país que pode reduzir juros é um país que estimula a produção, o investimento, e isso beneficia os mais pobres com emprego, dado que na prática eles não podem viver de rendas, esse é o melhor caminho para todos na ativa. País com juros baixos é também país com menores gastos financeiro, que podem ser revertidos em queda de tributos e/ou melhoria nas condições de serviços prestados ou da seguridade social. Isso beneficia empresas, empregados e também os mais idosos.
Portanto, quem vive de renda deve se preocupar com a queda de juros. Bancos talvez tenham que se adequar, mas a maioria da população estará melhor com uma estrutura de aplicações que prevê a queda de juros para patamares civilizados. No Japão, quem aplica nos títulos do Tesouro recebe, no máximo, 0,25% ao ano. Ninguém lá pode colocar o burro na sombra e viver de aplicações financeiras. No Brasil, hoje, ainda que os juros básicos tenham caído, para que uma pessoa receba em juros o equivalente a um salário mínimo, a aplicação necessária é de algo entre R$ 65 mil e R$ 70 mil. No Japão para receber essa mesma quantia em juros a aplicação teria que ser de R$ 2,6 milhões. O Brasil é ou não é o País dos rentistas?

Assessoria Técnica

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Inflação, bolsas e Europa: muita informação

Chega a ser difícil interpretar a alta do Ibovespa em um dia no qual o índice chegou a cair mais de 2% e terminou subindo quase 3%. No início da semana, ocorreu o contrário. Essa volatilidade era esperada bem como um leve viés de baixa nesta semana. Nesta terça, especificamente antes do feriado da Pátria, as notícias indicariam um resultado ruim, que, por sorte, não veio. Europa de novo com dúvidas rondando sobre a solvência de algumas economias, mercado americano indo de mal a pior nos últimos dias e a inflação medida pelo IPCA voltando a subir acima das expectativas, fechando agosto em 0,37% de alta.

Operadores creditaram o resultado do Ibovespa a uma leve melhora no final do pregão de Nova Iorque, mas certamente essa é uma explicação por falta de outra melhor. Assim é porque a melhoria dos índices americanos na prática foi irrelevante, e aconteceu bem depois do Ibovespa estar subindo rapidamente. Não dá para a causa vir depois do efeito. O mais provável é que os boatos sobre uma nova alta na avaliação de crédito soberano do Brasil tenham inflado os mercados. De fato, se compararmos nossas condições com o resto do mundo, o País merece um up grade no rating internacional, seja da S&P ou Moody’s.
De volta ao mundo, o País atravessa um momento complexo. Dados ruins e dados positivos se misturam tornando muito difícil uma avaliação reta, linear. Acreditamos que, em média, e relativamente, o Brasil vai bem, apesar de pressões inflacionárias (em um mau momento, já que o Banco Central acabou de reduzir a Selic) e da desaceleração do PIB baseado no desempenho medíocre da indústria. Esse estado de coisas deve permanecer assim por um bom tempo, o que dificultará a ação de analistas e as projeções. É um alerta para essa volatilidade do mercado que pode ainda se manter por um bom tempo.

Do lado internacional, novamente não estamos sendo pegos de surpresa. Quem acompanha o boletim sabe que não acreditamos em uma solução fácil e rápida para o caso europeu (dívidas soberanas muito elevadas e déficits públicos insolúveis). Também não está prevista uma recuperação rápida para a economia americana, ou seja, taxas de crescimento baixas e anúncios de desemprego alto estão precificados em nossas análises. Economia às vezes é muito chata, porque não existem mágicas nem muitas notícias bombásticas. Apenas o óbvio, que surpreende muita gente.
Assessoria Técnica

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Falta de informações (ou comodismo em excesso) onera o bolso do consumidor

Entra a taxa básica de juros (a já elevada Selic) e os juros praticados no mercado, a distância é muito grande. Em média, segundo o Banco Central (BC), as taxas de juro ao consumidor pessoa física estão ao redor de 47% ao ano, ou seja, 3,3% ao mês. Esse diferencial, chamado de spread bancário, engloba tributos, custos administrativos, risco e o lucro bancário (que não é exatamente pequeno). Ou seja, quando se compra a prazo, deve-se ter em mente que os bancos e as financeiras não são casas de caridade e parte do que é pago se destina a juros e não ao produto. Em outras palavras, quando um bem é adquirido a prazo, o total pago excede, e muito, o valor à vista desse produto ou serviço.

Isso não é nenhuma novidade e – espera-se – muito provavelmente o consumidor sabe disso. Tem ciência que, quando paga parcelado está gastando mais, muito mais, do que quando pagaria à vista. É verdade também que às vezes não é possível quantificar em dinheiro o prazer de comprar hoje ao invés de esperar e poupar. Essa pressa é diretamente proporcional à taxa de juros. Se o brasileiro fosse um povo de perfil mais poupador, certamente as taxas de juros seriam menores no mercado. Outro aspecto impossível de quantificar é a necessidade. Muitas vezes o consumidor quer poupar, sabe que é a melhor solução, porém se vê diante de algum problema que exige gastos de recursos que ele não dispõe na hora. Um acidente de carro, uma enfermidade na família, a quebra de um eletrodoméstico importante como um refrigerador. Nesses casos, o consumidor se vê obrigado a recorrer ao financiamento. Portanto, quanto maior a pressa e/ou a necessidade, maior a taxa de juros que está disposto a pagar, maior a renúncia que faz do dinheiro em prol do imediatismo.

Tudo é compreensível, inclusive a pressa. Mas ainda que se considere que o consumidor sabe que paga juros, sabe das vantagens e desvantagens de poupar, e também sabe mensurar necessidade e prazer, não é uma tarefa fácil explicar por que existem tantas discrepâncias entre as taxas de juro cobradas por diversos bancos, financeiras e administradoras de cartões. Não dá, efetivamente, para entender por que alguém escolhe pagar mais, quando pode pagar menos. Nesse caso não é uma questão de pressa ou necessidade, é apenas de escolha, em muitos casos. A tabela abaixo ilustra bem essas situações:

Como se pode notar, as carteiras têm taxas de juros muito distintas entre si. Enquanto o cartão de crédito chega a cobrar mais de 240% ao ano para financiar os consumidores um tanto apressados – e certamente acomodados –, existem carteiras que custam oito vezes menos. A simulação da tabela comprova que, entre ir ao banco pegar um financiamento de Crédito Direto ao Consumidor (CDC) ou escolher pelo meio mais rápido e cômodo, a diferença é muito grande, e não há racionalidade que explique esse padrão de comportamento. Até porque não é pequeno o número de consumidores que se endivida com cartão de crédito ao invés de ter um pouco mais de trabalho para pesquisar alternativas muito melhores.

Vale lembrar que não se trata de decidir entre comprar a prazo ou poupar, e sim de comprar a prazo da melhor maneira possível. Os jornais e a mídia em geral estão cheios das reclamações dos abusos de financeiras e das redes de cartão de crédito. Indignados estão muitos consumidores com sua sorte, mas lamentamos dizer que, em parte, a culpa é, nesse caso, de quem se faz de vítima. Ao invés de reclamar, o consumidor muitas vezes poderia ter optado por não se render ao comodismo e à tentação do segundo, e esperar não meses, mas talvez um dia ou dois a mais para fazer um negócio bem melhor. Quem está disposto a gastar R$ 2.800 ao invés de R$ 1.460 deveria receber um cartão de natal em agradecimento das administradoras de cartão de crédito ou dos gerentes das pessoas que abusam do cheque especial.

Assessoria Técnica

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Juros demais vão sufocar o consumo

A Fecomercio vem alertando para o fenômeno desde que o Banco Central (BC) começou a elevar a Selic e adotar medidas restritivas ao consumo. O diagnóstico de inflação de demanda é falho, em nossa opinião. Portanto, o remédio é pouco eficiente e traz muitos efeitos colaterais. Evidente que o BC deveria mesmo adotar medidas para conter a inflação, e certamente dentre as medidas o alívio da pressão de consumo seria importante. Acontece que essa foi, na prática, a única medida, quando a Fecomercio via outras hipóteses adjacentes e complementares.
Um dos erros que verificamos na ação de combate à inflação está calcado sobre a política cambial. Sob o fogo da indústria, o governo começou a conter a valorização do real. O problema é que a moeda nacional tem trajetória de desvalorização por conta dos preços internacionais das commodities. Essa valorização de nossa moeda funcionou por quase dois anos como a válvula de escape para que a pressão dos preços internacionais de commodities importantes não contaminasse o ambiente interno. A partir do momento em que o governo interferiu para conter a valorização da moeda, internalizou-se a inflação mundial dos preços básicos. Esse erro custou caro em pressão de alimentos e está custando caro em juros.
Não nos iludamos: as taxas de juros elevadíssimas que temos no Brasil condicionam nosso crescimento de longo prazo. São fortes obstáculos ao consumo e ao investimento, e não estamos só falando da Selic, mas das taxas praticadas para a Pessoa Física e Jurídica. Se no momento o consumo ainda cresce modestamente, o desemprego é baixo e a inadimplência controlada, isso não garante que essas variáveis não venham a nos incomodar ainda em 2011. Ao contrário, a Fecomercio mostra sua preocupação já neste ano:
1. O segundo semestre terá crescimento abaixo das projeções;
2. O consumo deste ano pode surpreender negativamente;
3. A inadimplência por hora controlada deve se elevar até o final do ano;
4. O ritmo de investimentos que vinha se elevando desde 2009 vai retroceder em 2011, o que prejudica o desempenho de 2012;
5. Todo benefício que o País teve com a alta dos preços das commodities – que somos grandes produtores e exportadores – estamos jogando fora com políticas equivocadas. Talvez esse bom momento para nossos produtos demore muito a acontecer novamente.
A inadimplência ainda está abaixo da média do mesmo período do ano passado (se bem que para a PJ já começou a subir), mas o desenho é de elevação no médio prazo, bem como os custos dos financiamentos que devem espantar cada vez mais o consumidor e restringir a taxa de crescimento da economia.
As medidas adotadas desde o final de 2010 estão ainda surtindo efeito, até porque em média as taxas de juros vão subindo gradativamente porque parte dos financiamentos já estavam acertados com taxas menores. Na medida em que novos financiamentos mais caros vão sendo feitos e os antigos pagos, essa taxa média tanto para PF quanto para PJ sobem. Portanto, o que estamos vendo ainda não é o pior momento dessa história. Os juros à pessoa física atingiram em abril 46,8% ao ano em média, saltando do patamar de 39% ao ano em novembro. Essa taxa é 14% maior do que a de abril de 2010 e é a maior dos últimos 23 meses.
Se hoje inadimplência, emprego, renda e crescimento do consumo não preocupam, sendo apenas a inflação o foco de problemas, acreditamos que no final de 2011 essa lógica possa estar invertida, e o grande problema do País volte a ser o baixo crescimento. Na realidade, a Fecomercio não defende trocar um pouco de inflação por um pouco de crescimento, pois sabe que essa receita não é boa, mas também sabe que o combate à inflação da forma que vem sendo feito é ineficiente e muito custoso para a sociedade como havemos de ver em breve.
Assessoria Técnica

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A trombada no segundo semestre

O desequilíbrio macroeconômico em nosso País, referente principalmente à solvência das contas públicas no longo prazo, faz manter uma taxa de juros muito elevada, mesmo em momentos de crescimento econômico baixo. Comemoramos, em 2010, pela primeira vez taxas de juros básicas de um dígito, e rapidamente voltamos a dois dígitos. No melhor momento de nossa história de juros, a Selic ficou próxima de 10%. Nesse mesmo período, as taxas europeias e americanas estavam rodando entre 0% e 2%.
Na realidade a economia da Europa e dos Estados Unidos afundava em 2009, e teve um ritmo de crescimento baixíssimo em 2010. Em parte isso explicaria o diferencial de juros, mas em outras regiões como o sudeste asiático, o crescimento foi semelhante ao do Brasil (em 2009 e 2010 foi em geral maior) e as taxas de juros vigentes são inferiores à metade da brasileira.
Não é a ideia central do texto de hoje discutir porque o Brasil não consegue reduzir a sua taxa de juros (tanto a taxa básica quanto à praticada no mercado consumidor), mas sim identificar quais efeitos colaterais esse fenômeno enseja. O principal efeito é o a necessidade de uma forte restrição de demanda para conter a pressão de preços. No Brasil, para conter um pouco de inflação, precisamos de muita restrição, ou seja, a política monetária não é muito eficiente em conter inflação sem antes gerar um desaquecimento exagerado. Esse é o cenário que começa a se desenhar para o segundo semestre deste ano: inflação alta e cedendo muito lentamente, e freada brusca no lado real da economia.
Alguns dados começam a ajudar nessa análise. O início de 2011 foi até um pouco mais aquecido do que era esperado, com boas vendas no varejo e forte aquecimento do setor de autos, exatamente no mesmo ritmo de 2010, um ano recorde para o segmento. A partir de fevereiro e março o cenário começou a mudar, e o que impressiona é a velocidade desse ajuste. Os principais segmentos a apontar essa desaceleração são o automobilístico e o imobiliário. No setor de automóveis, 2011 começou com vendas e produção crescendo de 15% a 20% e a partir de abril as taxas caíram muito. Tanto que, até abril a produção acumula crescimento de 3,8% e as vendas 4,6%, muito abaixo do desempenho de 2009 e 2010, e mesmo dos dois primeiros meses do ano. No setor imobiliário as vendas já mostravam desaquecimento desde janeiro, e com dados acumulados até março, o desempenho mostra queda de vendas na capital paulista de mais de 20% neste ano.
Pode ser que esses dados sejam apenas pontos fora da curva, mas algo indica que a probabilidade de que esses resultados sejam um indicador efetivo de desaquecimento é grande. Grande porque não só esses setores se mostram em desaquecimento, mas o IBGE divulgou na semana passada dados mostrando que a indústria brasileira em março, pela primeira vez em muitos meses, mostrou queda em relação ao mesmo período do ano anterior. Esses sinais combinados combinam bem com o arrocho que foi dado sobre o setor de crédito. No consumo os segmentos mais dependentes de crédito são justamente o de autos e o imobiliário e para o fomento industrial a disponibilidade de crédito é muito importante. Vamos nos manter atentos para que, se a freada for forte, que pelo menos se evite a trombada.

Assessoria Técnica