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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Juros básicos caem. Para o consumidor, depende

A Selic veio caindo e está prestes a, pela segunda vez na história, ficar abaixo de 10%. O fetiche dos dois dígitos persegue a economia brasileira, quando se trata de juros básicos.

Na realidade, o grande problema não está na taxa básica de juros, pelo menos para o consumidor. Claro, a queda da Selic é bem vinda para o consumidor que vai se beneficiar ligeiramente da redução dos custos de empréstimos, mas é muito mais importante para o País, que vai diminuir enormemente o custo de sua dívida pública, ainda muito vinculada a juros flutuantes de curto prazo.
Contudo, quando tratamos do assunto na ponta do consumidor, sob qualquer ângulo que se olhe (FecomercioSP, Banco Central, Anefac) o cenário não mudou tanto assim. As taxas de juros médias ao consumidor terminaram 2011 ao redor de 43,8%, o mesmo patamar do começo do ano passado, após ter chegado a mais de 47% em outubro. Ou seja, mesmo com a queda de juros recente, os consumidores ainda pagam excessivamente caro para obter um empréstimo. O pior é que, em algumas carteiras, como o crédito rotativo no cartão de crédito ou o cheque especial, as taxas permanecem em média estáveis há muito tempo. E estáveis na casa dos 150% a 240% ao ano, a depender do caso. Um estudo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) sobre os países latinos próximos como Argentina, Chile e Colômbia mostrou que a taxa para o financiamento no cartão de crédito não ultrapassa os 50% ao ano, ou seja, quase cinco vezes menor do que o nosso teto.

Algo está errado no sistema financeiro brasileiro (ou algo está muito confortável para bancos e administradoras de cartões). Na visão da FecomercioSP, de nada adiantam os protestos, quase infantis, contra os grandes lucros dos bancos. A atitude realmente capaz de mudar algo é promover o aumento da competição no sistema financeiro. Em primeiro lugar, o mercado ainda é muito fechado, porém, e mais importante, o consumidor tem um papel preponderante nessa cruzada para que as taxas de juros caiam a um patamar civilizado. É o consumidor, em última instância, o responsável pelas altas taxas de juros. Afinal, é o consumidor que vai tomar crédito, que se deixa descontrolar e entra no cheque especial, que compra no rotativo do cartão de crédito. É ele também que basicamente se recusa a sentar com o seu gerente de banco ou credor para renegociar os termos de suas dívidas como prazos e juros.
Quando isso começar a ocorrer de forma massiva, certamente os bancos e credores terão que competir entre si por consumidores mais conscientes.

Assessoria Técnica

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Consumo deve manter a economia andando no início de 2012

O salário mínimo deve subir para R$ 620, ou um pouco mais, logo no início do ano. Essa alta de quase 15% nominal e quase 9% real é um dos mecanismos pelo qual a propensão a consumir será minimamente mantida no ano que vem. Além do salário mínimo, as medidas que o Banco Central vem adotando, a conta-gotas, também devem surtir efeito na manutenção do consumo por meio dos crediários. E ainda existem medidas a serem adotadas paralelamente a essas que têm força suficiente para manter a economia rodando sem grandes percalços no início do ano.

Esse comportamento do governo se justifica por conta da situação externa. Crescimento baixo dos Estados Unidos e do Japão, adicionados a uma das mais complexas crises na Europa e que ameaça a moeda comum podem trazer ventos pouco suaves e bastante desagradáveis para o Brasil e outras economias. A grande probabilidade é de que essas economias saiam de suas crises e retomem seu crescimento ao longo dos próximos anos, mas sem que ocorram movimentos “tectônicos” ao longo do percurso. Mesmo sob esta hipótese o Banco Central e o governo estão certos em agir preventivamente.
Existem duas formas principais de contágio dessas crises de confiança, liquidez e crescimento que podem e devem atingir outras economias, inclusive o Brasil: em primeiro lugar, a queda da projeção da demanda global, o que depreciaria os preços de commodities, hoje uma grande fonte de renda e reservas internacionais para alguns países como Brasil, Índia ou África do Sul; em segundo lugar, a crise de liquidez e de confiança torna os mercados financeiros mais ariscos, e muito pouco confortáveis em manter o atual nível de liquidez para outros países.

Esses fenômenos externos vão certamente pressionar a economia brasileira de forma negativa, arrefecendo o setor produtivo por conta da queda da liquidez internacional e da redução das receitas cambiais. No curto prazo, a solução é apelar para o mercado interno, que, no caso do Brasil, é excepcionalmente grande e se mantém em crescimento. Essa estratégia funcionou em 2008, quando a crise e os receios sobre seus efeitos eram bem maiores do que neste momento. O artifício não foi suficiente para resguardar todo e qualquer setor ou empresa, mas funcionou de forma a que o tamanho do ajuste interno fosse minimizado.
Neste final de 2011 e início de 2012, não será diferente. Vamos fechar o ano crescendo cerca de 3% e iniciar 2012 com uma taxa média de crescimento menor, por volta de 1,5% a 2%, ao menos no primeiro trimestre. Como o mercado interno deve dar conta de grande parte do recado em termos de consumo agregado, a tendência é de que os ajustes serão relativamente pequenos e que não haja perda de postos de trabalho. Esse fôlego inicial para atravessar o mar turbulento é muito importante, porque permite ultrapassar a pior sequência de ondas e encontrar condições para se recuperar ao longo do resto do percurso. Para a FecomercioSP é isso que deve acontecer: o BC vai injetar ânimo por meio da redução de juros e dos compulsórios, e ao mesmo tempo, o crescimento do salário mínimo acima da inflação vai manter uma base de consumo crescente. Parece que o Brasil está fadado a crescer nesta década mais do que a média mundial. Imaginem se estivéssemos preparados para isso.

Assessoria Técnica

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Juros americanos - A história de uma bolha

A bolha de consumo norte-americana é efeito e não causa de um problema. O excesso de gastos das famílias foi estimulado pelas taxas de juros artificialmente baixas e por condições de empréstimos muito lenientes, ou seja, os bancos foram pressionados a expandir crédito. As taxas de desconto do Federal Reserve (Fed Funds) davam guarida a essa estratégia se mantendo abaixo do que ocorreria em equilíbrio natural de mercado.

Conforme se pode notar, após 2006 as taxas foram sendo pressionadas para baixo, na realidade em uma tentativa do governo por meio do Fed de manter o ciclo de prosperidade e de não deixar a bolha de consumo, que já havia sido criada, explodir. Atualmente, essas taxas também se mantém muito baixas, porém a história de consumo das famílias nos últimos anos é muito diferente daquela que ocorreu entre 2000 e 2005 ou 2006. Após o estouro da crise imobiliária, marcada com a quebra do Lehman Brother, em setembro de 2008, a estratégia de juros baixos foi fortalecida. Vale ressaltar que de fato é uma boa estratégia quando a economia está fraca, porém foi a manutenção dessas taxas muito baixas ao longo de quase duas décadas que geraram a bolha em si.
Abaixo, segue um quadro com as efetivas taxas de juros americanas, as de curto prazo que hoje são mantidas praticamente em 0% para não aprofundar a crise e as de longo prazo que mostram sinais de aumento desde o final de 2008, justamente após a crise. Toda essa estrutura de juros baixos no período da década de 1990 e 2000 tem a marca da tentativa de resolver um problema criando outro maior, ou seja, quando o mercado dava sinais de que o processo estava se exaurindo, achava-se uma forma de estimular a economia mais um pouco. Nenhum presidente de Banco Central ou governo quer esse problema estourando no seu colo. Próximo a 2006 e 2007 o risco foi percebido por todos, inclusive não especialistas e as taxas de curto prazo explodiram antes do estouro da bolha, mas foi justamente esse “recolhimento” de crédito dos bancos cada um tentando salvar o seu interesse que de fato acabou por estourar esse ciclo no final de 2008. A partir dali, o governo foi obrigado a confeccionar pacotes de injeção de capital enormes e manter as taxas próximas de zero sob risco de um travamento ainda maior no setor de crédito. Em azul, as menores taxas da série e, em vermelho, as maiores para facilitar a análise.

Ao contrário do que ocorre com as taxas de curto prazo, atualmente “manipuladas” para ficarem abaixo do equilíbrio normal, as taxas de longo prazo subiram desde o epicentro da crise. Os títulos de 30 anos nos Estados Unidos mostram taxas elevadas se comparadas ao curto prazo, confirmando a hipótese de que atualmente os juros de curto prazo e a desvalorização da moeda não estão sendo capazes de estimular o consumo, mas podem gerar pressões inflacionárias no médio prazo.
Esse cenário não deve se alterar no curto prazo: dólar fraco, juros baixos no mundo e economia ainda com dificuldades. Mas é uma boa oportunidade para a aquisição de títulos de longo prazo que, de modo geral, estão pagando boas taxas relativamente ao curto prazo.

Assessoria Técnica

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Juros demais vão sufocar o consumo

A Fecomercio vem alertando para o fenômeno desde que o Banco Central (BC) começou a elevar a Selic e adotar medidas restritivas ao consumo. O diagnóstico de inflação de demanda é falho, em nossa opinião. Portanto, o remédio é pouco eficiente e traz muitos efeitos colaterais. Evidente que o BC deveria mesmo adotar medidas para conter a inflação, e certamente dentre as medidas o alívio da pressão de consumo seria importante. Acontece que essa foi, na prática, a única medida, quando a Fecomercio via outras hipóteses adjacentes e complementares.
Um dos erros que verificamos na ação de combate à inflação está calcado sobre a política cambial. Sob o fogo da indústria, o governo começou a conter a valorização do real. O problema é que a moeda nacional tem trajetória de desvalorização por conta dos preços internacionais das commodities. Essa valorização de nossa moeda funcionou por quase dois anos como a válvula de escape para que a pressão dos preços internacionais de commodities importantes não contaminasse o ambiente interno. A partir do momento em que o governo interferiu para conter a valorização da moeda, internalizou-se a inflação mundial dos preços básicos. Esse erro custou caro em pressão de alimentos e está custando caro em juros.
Não nos iludamos: as taxas de juros elevadíssimas que temos no Brasil condicionam nosso crescimento de longo prazo. São fortes obstáculos ao consumo e ao investimento, e não estamos só falando da Selic, mas das taxas praticadas para a Pessoa Física e Jurídica. Se no momento o consumo ainda cresce modestamente, o desemprego é baixo e a inadimplência controlada, isso não garante que essas variáveis não venham a nos incomodar ainda em 2011. Ao contrário, a Fecomercio mostra sua preocupação já neste ano:
1. O segundo semestre terá crescimento abaixo das projeções;
2. O consumo deste ano pode surpreender negativamente;
3. A inadimplência por hora controlada deve se elevar até o final do ano;
4. O ritmo de investimentos que vinha se elevando desde 2009 vai retroceder em 2011, o que prejudica o desempenho de 2012;
5. Todo benefício que o País teve com a alta dos preços das commodities – que somos grandes produtores e exportadores – estamos jogando fora com políticas equivocadas. Talvez esse bom momento para nossos produtos demore muito a acontecer novamente.
A inadimplência ainda está abaixo da média do mesmo período do ano passado (se bem que para a PJ já começou a subir), mas o desenho é de elevação no médio prazo, bem como os custos dos financiamentos que devem espantar cada vez mais o consumidor e restringir a taxa de crescimento da economia.
As medidas adotadas desde o final de 2010 estão ainda surtindo efeito, até porque em média as taxas de juros vão subindo gradativamente porque parte dos financiamentos já estavam acertados com taxas menores. Na medida em que novos financiamentos mais caros vão sendo feitos e os antigos pagos, essa taxa média tanto para PF quanto para PJ sobem. Portanto, o que estamos vendo ainda não é o pior momento dessa história. Os juros à pessoa física atingiram em abril 46,8% ao ano em média, saltando do patamar de 39% ao ano em novembro. Essa taxa é 14% maior do que a de abril de 2010 e é a maior dos últimos 23 meses.
Se hoje inadimplência, emprego, renda e crescimento do consumo não preocupam, sendo apenas a inflação o foco de problemas, acreditamos que no final de 2011 essa lógica possa estar invertida, e o grande problema do País volte a ser o baixo crescimento. Na realidade, a Fecomercio não defende trocar um pouco de inflação por um pouco de crescimento, pois sabe que essa receita não é boa, mas também sabe que o combate à inflação da forma que vem sendo feito é ineficiente e muito custoso para a sociedade como havemos de ver em breve.
Assessoria Técnica